segunda-feira, 19 de agosto de 2013

CONFISSÃO 2

19 DE AGOSTO DE 2013

Vejo árvores e flores que se erguem indiferentes à selvageria do ambiente urbano. Estou sentado numa mesa de fundo, numa padaria indiferente, onde aguardo um suco de laranja sem gelo nem açúcar. Os vidros e as grades que me separam das árvores da praça se espalham por todo o campo visual e cobrem de medo a paisagem da rua, da avenida, do bairro e da cidade como um todo. Grades que se retorcem emaranhadas aos arames farpados, Estão encardidas com fuligem, assim como o asfalto e as placas das ruas, das avenidas, dos bairros e da cidade toda.
Numa placa de plástico anuncia-se o combate a raiva, dia da vacinação de animais, cães e gatos.
Vejo vez por outra, em intervalos curtos, donos de cães e cães andarilhando pela praça. Defecam, os cães. Pensei que dirigiam-se para o local de vacinação, mas estão apenas andando rotineiramente.
Busco algum sentido para as coisas a meu redor, mas desisto rapidamente. De fato, nada há que se possa considerar senão a perda do tempo que tinge a vida das pessoas em seus carros parados no trânsito pesado.
A tristeza de ter retornado à vida urbana é apenas um ar gélido que não pode me invadir por completo, pois estou ainda muito estrangeiro, carrego muitas recordações recentes de mar e areia, de ar e sol, e isto ainda não foi completamente retirado de mim.

CONFISSÃO 1

Inicío aqui uma narrativa que nada tem de novo. Tudo, de alguma forma, por hipótese, já deve ter sido discutido por outros homens, no sentido do que poderá vir a ser posto acerca da vida urbana. No entanto, tudo o que escreverei aqui, sempre e necessariamente será novo, pois eu nunca o tinha feito antes, e o homem sempre vê de modo único, ainda que possa convergir suas palavras para os mesmos núcleos de argumentos.
Escrever sempre é confessar alguma coisa para si.
Assim, eu confesso aqui que nada sei sobre o que vou escrever, senão, que o farei do modo mais direto e honesto possível, buscando antes a expressão aberta, volátil e puramente "sensorial", do que um fio condutor lógico que resguarde o texto da ininteligibilidade, mesmo porque, a vida urbana em São Paulo possui muito mais de irracional e ilógico do que qualquer outra coisa.